terça-feira

21 de janeiro de 2009


Mãe, eu queria que tu parasse de andar impaciente por detrás de mim porque já é a vigésima vez que eu começo a escrever em minha cabeça e eu nem sei mais como continuar. Mãe, eu queria que tu nunca tivesse vasculhado o teu passado, que tu nunca tivesse encontrado essa máquina, que nunca tivesse me dado ela porque aí o barulho das teclas dela não ia fazer tuííím no teu cérebro e tu não ia ter de roer tuas unhas tão bem cuidadas com tanta voracidade agora. Mãe, eu queria que tu saísse daqui agora porque tá uma vontade louca de chorar dentro de mim e eu nunca aprendi a fazer isso na tua frente. Mãe, eu queria que tu acabasse com essa fumaça que envolve a gente, eu queria que tu me roubasse esses meus cigarros assim como tu roubou todas as outras coisas ruins de mim sem que eu percebesse. Mãe, eu queria que tu tivesse chorando agora, mãe, igual as outras vezes que eu sentei aqui pra te escrever uma carta-de-te-amo só pra te fazer sorrir. Mãe, eu queria que tu se lembrasse de tudo que a gente já conversou e de quantas vezes eu te disse que o tempo é a coisa mais triste que existe porque o tempo é vazio e não tem sentido e eu, mãe, eu sou o tempo, só que mais vazio e mais triste ainda e todo esse teu amor-de-deus-de-mãe nem parece existir aqui dentro. Mãe, eu queria que tu não tivesse aflita porque tu tem a certeza de que eu tô prestes a fazer uma coisa feia e a tua aflição me entristece ainda mais e essa tristeza crescente me dá ainda mais forças pra não recuar. Mãe, eu queria que tu me prometesse que vai se livrar dessa cidade angustiada, dessas pessoas doentes de angústia, dessa casa angustiada porque nada disso te faz bem, mãe, nada disso. Mãe, eu queria que tu nunca chorasse porque tu sabe o quanto eu te odeio quando tu tá triste, mãe. Mãe, eu queria que tu jamais sentisse culpa por ter sido minha mãe, por ter respeitado minha privacidade, por não ter lido isso aqui antes da hora. Mãe, eu quero que tu se liberte da culpa de ter sido minha amiga durante todos esses verões. Mãe, eu queria que tu me deixasse sozinho hoje, agora, porque eu ainda quero chorar um tempão sem ninguém por perto, mas eu sei que tu tá preocupada demais comigo e não vai sair do meu lado, então vem cá e me dá um abraço bem forte porque eu sei que tu vai sentir uma dor vazia quando eu for embora. Mãe, eu queria que tu perdoasse a sujeira, a bagunça de criança que eu vou deixar, mas eu te juro, eu te juro, mãe, que vai ser a última vez. Mãe, eu queria que tu não entrasse no meu quarto, que não visse nada porque vai ser feio, mãe, vai ser feio, e tu quase nem toma remédios mais e eu acho que eles são insuficientes pra mim. Mãe, eu queria poder te tranqüilizar agora porque paz, como tu sempre diz, mãe, paz é tudo. Mãe, eu queria estar ao teu lado, mãe, e apertar tua cabeça contra meu peito, apertar os olhos e tapar teus ouvidos quando uma das balas me tomar a vida que tu me deu, mãe, que tu me deu. Mãe, eu queria ter sido o filho que tu sempre quis ter. Mãe, eu queria dizer, mãe, eu queria dizer que eu te amo, que eu te amo muito, mãe. Mãe, eu queria

23 comentários:

Roberto Borati disse...

sensacional, um texto daqueles que não é só de breaco, mas que vem do fundo, lá do fundo, de uma amargura quase dolorosa, de uma lágrima quase esperançosa.

abraços.

Tainá Holanda disse...

apertou meu coração arduamente com essas mãos impregnadas de tristeza e sujeira. deu um nó no meu peito.
bravo.

Tainá Holanda disse...

apertou meu coração arduamente com essas mãos impregnadas de tristeza e sujeira. deu um nó no meu peito.
bravo.

Fernanda Amábile disse...

Tão lindo!!
Com aquele sentimento todo que parece transbordar das palavras já escritas e que nos torna irmãos pelo sofrimento alheio.
parabéns.

Douglas Thaynã disse...

Excepcional! Muito bom mesmo. E (não sei se você é disso), mas tem um selo para o Ensaios Caóticos lá no Sangue e Solidão.

Vinícius disse...

Nu. nó no peito de todo mundo. Nunca pensei que tantos vocativos pudessem ser colocados tantas vezes num texto sem estragá-lo. Aliás, tantos "mãe" só ajudaram na intensidade das emoções.

Bravíssimo!

Guilherme Rodriguez disse...

Incrivél cara. Como ja foi dito, da um aperto aqui dentro...
Amor saturado, sofrido e escrito em belas palavras. Parabéns

disse...

Parabéns cara, foi um dos textos mais difíceis de se comentar, pois não nos da palavras pra comentar...
Você colocou todo amor e a dor nas palavras! Meus parabéns!

Lucia M. Ghaendt-Möezbert disse...

Sim, excepcional mesmo. Os textos produzidos com certa distância afetiva podem ser comedidos, claros e bastante interessante, mas o ser humano e seus sentimentos assim, intensamente escritos, rendem as melhores leituras.

Ana Bitti disse...

Lindo. Você escreve muito bem! Descreve bem seus sentimentos, suas dores.
Beijos
http://ultravioletkiss.blogspot.com

Versos Perdidos disse...

Parabéns! Nem consigo descrever o que senti.

iule Karalkovas . disse...

Como eu gosto do seu blog, esse layout ficou leve... Bem bonito!
Tem um selo para você lá no meu blog,
Beijos.

Paju Monteiro disse...

Tenho uma lembrancinha para você no blog, vá la pegar...

Kakau Oliveira disse...

muito bom, muito mesmo ! Continuo adorando seu blog :D

um beijo.

Inácio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Inácio disse...

Muitas palavras que eu precisava falar...Muitas já falei...Outras jamais falarei...Falar por necessidade, não...




"Qnd eu deixar de fingir vc ainda vai me amar, mamãe?"


Sempre um prazer receber sua visita no Profeta...
Vlw pela ausência.

Liza Santana disse...

É estranho falar de pessoas tão próximas a mim, ainda mais porque são pessoas que eu amo demais para poder descrever em palavras o que eu sinto. É tão difícil. E você conseguiu isso. Tudo o que eu desejo escrever. Mas não consigo.

Você escreve muito bem menino.

Priscila M. disse...

Perfeito, fiquei emocionada ...
Obrigada por provocar sensações

=)

vinícius reis disse...

aperto e compaixão por jonas. esse conhecido de nome diferente

Liρє Pαiм disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Liρє Pαiм disse...

Man, eu já disse que sou seu fã? Quando eu crescer quero ser como você, cara.
Nunca mais tinha sentido isso, esse aperto, essa vontade imunda de chorar, mas você conseguiu despertar isso com uma simplicidade tão cruel e tão perfeita... Não tenho nem palavras pra definir o que me causou.
Magnífico

Liρє Pαiм disse...

Man, eu já disse que sou seu fã? Quando eu crescer quero ser como você, cara.
Nunca mais tinha sentido isso, esse aperto, essa vontade imunda de chorar, mas você conseguiu despertar isso com uma simplicidade tão cruel e tão perfeita... Não tenho nem palavras pra definir o que me causou.
Magnífico

Selva P. disse...

Nossa, que belíssimo texto, Matt.
Fiquei muito emocionada, meu =x
Que lindo!!
Tu escreve muitíssssimo bem (:
Quase choro.
Obrigado por provocar sensações 2
Beijoo ;**