domingo

Apatia: vê, esse é o fardo, essa é a sina, a palavra perante tudo que me rodeia. Tudo, exceto um algo desassossegado que lateja, inflama, baila freneticamente, pulsa e não descansa em mim. A gente acorda e não tem tesão em viver, não levanta de pau duro pro dia, come qualquer coisa, que diferença faz?, passa pelos outdoors cheios de cores, lê, pensa: "lixo!" ou "publicidade de merda!", a  gente é mastigado, deglutido pelo cinza insólito da cidade, pela repetição do cotidiano e tudo mais. Apatia, isso é o que a gente sente e olha pra cima, vê a escuridão, vê a lua, mas não vê deus. É esse lance que você me falou uma noite, não temos nem vinte anos ainda, mas já sentimos a desesperança de quase um século vivido sugando nossas almas...

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Abandono: a gente nasce, cresce, se apaixona, trabalha, se fode e morre sozinho no caixão, abandonado. É assim que acontece. Não ouço rádio porque gosto, ouço pra escutar a voz de outra pessoa além das minhas interjeições mau-humoradas, bato punheta, fico chapado pra conseguir rir da posição que o cachorro tá dormindo em cima do sofá ou das tragédias anunciadas nos jornais. Essa semana comprei três travesseiros e durmo abraçado com dois, imaginando ser alguém. Tem mais de quatro milhões de pessoas igualmente abandonadas lá fora e nenhuma delas é suficiente pra arrancar do peito essa solidão de ninguém...

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Desespero: é isso podre berrando, implorando socorro, sabe? Livrai-nos de todo o mal, rogai por nós, me rege, me guarde, me governe, me ilumine, me salve, me salve, me salve. Quando eu era criança achava que nessa idade já teria pelo menos um carro - a televisão está infestada dessas coisas, aliena a gente, aliena as crianças, coitadas!, todo mundo, não sou jogador de futebol nem ator de novela - e olha o que tenho hoje: alguns livros, cds e fotos, dezenas de cartas pela metade e essa sede de cicuta com calmantes. Ando pensando tanto em suicídio ultimamente que suponho já estar morto, desesperado, suplicando por uma outra vida ou qualquer coisa que me faça não ter de ligar a TV à noite pra abafar os gemidos penosos da solidão...

7 comentários:

- Mateus Bernstein disse...

originalmente este post era uma espécie de carta-desabafo que nunca foi enviada. tirei-a do contexto e alterei a ordem de alguns parágrafos a fim de criar um "efeito" diferente.

desconheço essa necessidade de dar explicações que estou tendo agora, mas tá aí.

Anna Carla disse...

Perfeito. Sem mais. Me identifiquei com muita coisa.

dougggg disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Douglas Thaynã disse...

Absolutamente fascinante. Verdadeiro. E trocentos outros adjetivos.

Estrela de Tinta. disse...

Você escreveu o que muitos queriam poder dizer.

Carol Rezende disse...

Eu não sei explicar bem o que sinto quando leio seus textos. É uma forma de empatia, de identificação, é sempre prazeroso abrir o seu blog e me deparar com obras iguais à essa.

"Apatia", muito do que sinto, parecia ter saído da minha mente. Esse post me remeteu a Bukowski, e lembrei também de um trecho que é meu predileto do Roberto Freire, do livro "Cléo e Daniel", se te interessar, mando o link de um e-book.

Parabéns, mais uma vez!

ladrilhodissoluto disse...

triste. real. ou não. mas taí. é bom negão. muito bom. já m identifiquei mais com ele... ainda me identifico talvez. não sei. captou bem o sentimento.