sexta-feira

06 de maio de 2011,

Bem-te-vi,

É estranha essa sensação que tenho, toda vez que sou acometido por uma crise de loucura existencial passageira ou mesmo insônia e enxaqueca de pegar cadernos com cheiro de mofo, folhas avulsas aos montes, te escrever cartas repletas de palavras desesperadas ou verdades inconfessáveis e, no entanto, sempre acabar por engavetá-las, temendo te afligir ou quem sabe até mesmo te perturbar com o meu desassossego.

Não que você esteja precisando de alguma informação urgente sobre o meu humor ou meu bem-estar - se tenho comido direito, tomado os remédios na hora certa, se minha cabeça parou de doer ou dói menos que antes - mas sinto uma necessidade exagerada de te comunicar que não estou bem. E nem consigo, aliás, lembrar ao certo a última vez que estive diferente de como venho passado as últimas semanas. Sabe, náuseas, vertigens, síncopes, colocar esse universo inteiro daqui de dentro pra fora de uma só vez.

[...]

Logo que acordei, ao meio-dia, sol no cume do céu, as costas encharcadas e os cabelos pesados de suor, tive uma súbita vontade de vomitar e me dei conta de que havia um nada do tamanho de deus - se ele ao menos existisse - entorpecendo minhas forças morais, meu alento, meu ânimo. Estou apático, transbordante de um marasmo quase sem fim, com quase tudo que me cerca. Quase tudo.

Sinto falta da plenitude daquilo que,  entre o clarão de um relâmpago e outro numa dessas noites chuvosas de verão, bem baixinho  no meu ouvido você definiu como alegria incontida e irresponsável de viver. Me afogo em vícios alcoólicos, acendo um cigarro atrás do outro - por favor, não pense que estou me negligenciando, isso não, meu deus - leio Rimbaud, durmo, penso em suicídio, encontro amores efêmeros e insossos, tudo para tentar não mais querer me aninhar, guria,  contigo  embaixo dos teus lençóis carmins e não mais desejar enterrar minha história, minha vida, minha alma nos teus cachos, nas tuas coxas.

[...]


Espero que esteja bem, muito bem.
Com carinho,

do teu M.





5 comentários:

Anna Bittencourt disse...

Você tem o Dom, Matt.
Tem sim.

dougggg disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Douglas Thaynã disse...

De fato.

Tainá Holanda disse...

Com palavras simples (nunca simples palavras) você fez do teu estado, que abrange a maioria dos "escritores e depressivos de gaveta" - sim, sou um deles -, um estado romântico, cheio de personagens à luz da imaginação. Te confesso que pude estar aí, com você, nesses poucos minutos... Vendo teu cabelo suado, tua vontade de vomitar, teu desespero.
Mas não te desespere. A maré cheia sempre volta...

vinícius reis disse...

cara, eu me perco completamente nestas tuas descrições tão épicas da existência do homem. é ótimo ter esses ensaios de volta.