sábado

Jonas

Imagine uma cidade.

Uma cidade qualquer, dessas grandes, quase infinitas, do tamanho de uma  metrópole, repleta de luzes vermelhas, amarelas e verdes, onde as pessoas mal falam umas com as outras porque andam sempre com pressa e palavras como engarrafamento ou trânsito lento provocam nelas calafrios de proporções dantescas.

Imagine agora dentro desta grande cidade um pequeno condomínio popular, com edifícios desgastados de, no máximo, quatro andares e exatos quatro apartamentos por andar num bairro bem populoso e movimentado desta metrópole. Então, imagine seus moradores: a maioria deles com idade entre 25 e 40 anos, que financiaram seus próprios veículos há mais ou menos 6 ou 7 anos em 60 (alguns até em mais!) prestações, alguns poucos idosos e algumas crianças, filhos dos casais com idade entre 25 e 40 anos.

Conduza, então, sua imaginação a qualquer um destes velhos edifícios. Escolha qualquer um dos quatro apartamentos e vá entrando sem tocar a campainha ou bater a porta. Ela está aberta.


Veja, então, quão pequeno é este lugar e quanta claustrofobia cabe aqui. Perceba como não é possível ter uma TV com mais de 20", pela falta de espaço  existente. Dirija-se até a cozinha e perceba como o fogão quase encosta na geladeira. Dê alguns passos para a esquerda e entre no único quarto que este apartamento tem. Veja através da janela o céu, como as nuvens estão carregadas e escuras, como o sol quase não brilha. Agora volte para a sala e veja o homem que está nu, deitado no meio dela. Veja suas roupas jogadas no canto, seu relógio em seu braço esquerdo, seus óculos em cima do sofá-cama, que fica bem abaixo daquela réplica dO Bebedor de Absinto, do Manet. Veja bem seus cabelos desgrenhados, sua barba bem-feita, sua fisionomia arrasada pelo caos imanente desta grande cidade.


Este é Jonas.

Muito bem, agora que você já o conhece, cabe a mim contar a sua história. Sugiro que a partir deste ponto deixe um pouco de lado a sua imaginação e preste o máximo de atenção que puder tão somente em mim.

Jonas e eu nunca fomos grandes amigos. Às quartas e aos domingos, descíamos ao bar do Zeca para assistirmos a partidas de futebol. A princípio quase não nos falávamos, mas de tanto nos encontrarmos por lá nos mesmos dias, começamos a ter um contato maior. Passamos nos sentar na mesma mesa, tomar cerveja juntos, comentar as partidas e contar nossas histórias entre um gole e outro  e lances desinteressantes dos jogos. Como disse, nunca fomos grandes amigos, mas à medida que o tempo passava, tomamos maior intimidade, até o dia em que já ligávamos pra confirmar a presença do outro no bar.

Aos poucos, ele foi se revelando. Jonas era uma pessoa sem sonhos, sem paixões, sem amores, sem desejos. Apreciava um bom vinho. Gostava de Cartola e Bezerra da Silva, mas nem de longe era um desses malandrões que vivem pelos centros das grandes cidades aplicando um golpe aqui e outro ali e seduzindo as as moças que trabalham por lá. Ao contrário, era escritor, poeta e professor de filosofia. Falava de Kant, Sartre, Kierkegaard, existencialismo e da metafísica aristotélica. Confesso que com muita dificuldade o compreendia mas, ainda assim, reputava-o um homem bem interessante e tinha para mim que a sua companhia era uma das mais agradáveis que podia desfrutar na época.

Os meses foram-se passando, e coisas que não vêm ao caso aconteceram comigo, de modo que tive de me afastar subitamente de Jonas. Deixei de frequentar o bar do Zeca e atender suas ligações. Não me lembro com exatidão - creio, entretanto, que sempre tive boa memória e raramente esqueço das coisas - mas não me recordo de alguma vez Jonas ter-me contado de alguém com quem já viveu ou alguma pessoa pela qual tenha se apaixonado. Não era do tipo frio, suponho que nunca teve a oportunidade, ou, talvez, a sua falta de tudo: desejos, paixões e vontades, tenha feito com que ele nunca tenha se encantado com ninguém. De fato, era perceptível até mesmo em seu olhar e na sua respiração  que a solidão era a única coisa que tinha dentro dele.

Uma noite voltando para casa do bar do Zeca, depois de beber e comemorar a vitória do meu time, encontrei embaixo da porta uma carta de Jonas, que, implorando socorro, me relatava suas três últimas noites de insônia e desespero e angústia e tédio e vazio e nada  e por que havia deixado de tomar fluoxetina e, em vez disso, comprou quantidades enormes de venlafaxina.

Naquele dia ele tinha lido Durkheim e escrito muitas outras cartas e poemas destinados a ninguém. Passou parte da tarde olhando o céu carregado de nuvens e o sol que quase não brilhava e o trânsito e os milhares de carros que andavam em filas feito formigas na infinidade do asfalto. E olhou muito pro seu pequeno apartamento e viu bem como havia um espaço enorme pra ele ali dentro. Só  pra ele.

Assim, tomou de uma só vez todos os medicamentos novos que havia comprado, ligou o gás, despiu-se, fechou todas as janelas e a porta, mas esqueceu de trancá-la. Deitou-se no chão até começar a sentir sono. Um sono enorme, enorme, tão grande que Jonas nunca mais teve vontade de acordar.

Era quarta-feira.

6 comentários:

Felipe S. disse...

Excelente texto!

Kakau Oliveira disse...

Adorei, final melhor que esse eu não imagino :D

:*

Wilson Vaccari disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ju Markus disse...

Realmente um texto incrível... O modo como você conduz a história dando o máximo de detalhes possíveis nos prende muito ao texto. Parabéns mesmo! Beijo

Marília Costa disse...

Vc conseguiu prender minha atenção até o final. Quero mais! Ótimo texto, parabéns!

marina s. disse...

qualquer um de nós - bom, deles, estou longe dos 40 ou 25 - sao jonas, isso torna o texto delicioso