terça-feira


07 de fevereiro de 2012



Pra ler ao som de Babe, I’m gonna leave you – Led Zeppelin




Ana Vitória,


Tentei te acordar. Juro que tentei. Não propriamente falando, até porque desde a hora que você foi deitar – com o cansaço de duas décadas sobre seus ombros - eu sequer saí dessa cadeira. Mas fiquei um tempão imaginando como eu poderia chegar até você, te balançar suave pra que você não acordasse assustada de um sonho bom que talvez estivesse tendo e te falar assim de súbito todas as coisas que eu tenho pra te contar.


Então passei mais algumas horas pensando em alguma coisa pra te escrever e deixar escondida em suas coisas, em suas roupas, em seus livros, sei lá, antes que o dia amanheça e eu não esteja mais aqui. Imaginei  sua cara ao ler sabe-lá-deus-o-que-vou-escrever-aqui assim que encontrar isso e senti a agonia asfixiante de não poder responder ou mesmo dizer nada, como já aconteceu tantas outras vezes, só que agora não por não querer ou não saber o que falar, mas por não poder.



O que tenho pra te dizer é pesado, e não poderia deixar de sê-lo. O fato é que passamos por muita coisa juntos e "muito" nesse contexto é um eufemismo singelo. Sabemos – eu sei que você também sabe - que não foi fácil esse período, que não foi fácil desde que nos conhecemos: sempre muito intenso, sempre muito frágil, sempre muito instável. “A porra do ciclo”, como aprendemos a nos referir a isso. Esse ciclo já quase me esmagou diversas vezes e sei também que não foi nem um pouco fácil pra você, mesmo não sendo tão fraca quanto eu nesse ponto e tendo sempre segurado melhor (ao menos melhor que eu), as inúmeras variações da maré, estando (quase) sempre ali, onde eu pudesse contar. 


Foram muitas as madrugadas que passamos juntos. Algumas sombrias, outras epifânicas. Complicado, complicado, você falava nesse seu habitual laconismo em algumas dessas situações. Mas eis o paradoxo: sendo vaga, você terminava por ser precisa, ou, ao menos, não-prolixa, como eu fui muitas vezes. Não que você não dificulte as coisas - você sabe que dificulta. Você é uma pessoa difícil pra caralho de lidar e pode, por vezes, ser insuportável, no sentido mais literal possível.



E não que agora eu já não saiba algumas respostas, pois você sabe que eu sei. Acontece que eu fui passando a tentar me preocupar mais com as perguntas, sabe, perder o medo de fazê-las, todas possíveis, na esperança de jogar alguma luz nessa escuridão que nos atravessou todo esse tempo. E pode dar certo, você não acha? As coisas me parecem bem mais leves agora, depois do nosso último conflito, que fez com que cada um de nós fosse pra um canto diferente, como cacos de um prato quebrado, como um processo irreversível.


Mas por motivos que estão além de minha lógica e vã filosofia, “a porra do ciclo” trouxe a gente de volta, assim como me trouxe até aqui, assim como vai trazer sabe-se-lá-o-quê num futuro imprevisível (você sabe do que eu tô falando...).
Seja como for, eu estou aqui e você está aí, e estamos juntos nessa, seja lá o que "nessa" signifique - e, nesse caso, conceituação é o menor dos problemas.
E isso eu espero que não mude nunca, que continue resistindo a toda instabilidade psicológica e concreta das nossas vidas.


Com carinho,
M.

2 comentários:

Rick disse...

Esse texto é bem verdadeiro, tipo, a uma verdade bastante expostas nas palavras, é como se eu conhecesse esse casal, sei lá.


Muito bonito. "_"

Filipe Paim disse...

É incrível a maestria com que você conduz seus textos. Parabéns!