quarta-feira

15 de fevereiro de 2012,

"Vai pro seu trabalho todo dia
sem saber se é bom ou se é ruim

quando quer chorar vai ao banheiro
Pedro, as coisas não são bem assim"

Bruno,  









Era final de 2010, velho, eu lembro, quando você falou que dali a cinco anos a vida seria diferente, completamente diferente e eu concordei porque, porra!, cinco anos é muito tempo e até lá eu já estaria acostumado a viver do jeito que a vida seria dali a cinco anos. E você dizia que a gente vivia uma vida de luxo, e isso era fato, ainda que nossos saldos no banco fossem negativos, até porque não é todo mundo que pode sair todo final de semana com o “fuck it all” ligado e beber, as pessoas têm responsabilidades, você falava, têm família, têm um chefe pegando no pé delas o dia inteiro e dali a cinco anos seria assim conosco, estaríamos atolados de coisas pra fazer, teríamos tarefas a cumprir e o escambal e eu fiquei pensando ah, mas falta tanto tempo ainda... porque eu simplesmente não queria que tudo desse uma reviravolta e na época, você sabe, era tudo mais fácil. Não tínhamos um puto no bolso, mas voltávamos pra casa quase todos os dias embriagados e felizes. Bebíamos vodca barata, cantávamos "se eu quiser fumar eu fumo, se eu quiser beber, eu bebo, lalalalala...", roubávamos uns livros aqui, outros ali, jogávamos dominó, escrevíamos uns contos e tínhamos todas as horas do mundo pra contar histórias e jogar conversa fora.
E hoje, veja só, temos dinheiro suficiente pra comprar cervejas importadas. Cerveja importada, velho. Vodca importada e energético. Podemos encher de dinheiro o rabo dos empresários estrangeiros até cairmos em coma alcoólico e a vida, a vida me parece bem mais confortável hoje em dia, o que, não é necessariamente uma coisa boa, como você deve saber, porque, olha só, agora nos falta tempo e nem eu, nem você, nem ninguém mais temos mais tempo de ver o tempo passar... não dá mais pra simplesmente sair uma tarde qualquer, num dia comum no meio da semana, reunir a diretoria completa pra falar sobre amores do passado e ouvir umas coisas engraçadas sem ficar olhando toda hora pro relógio se perguntando que horas são, sem fazer as contas e ficar, por vezes pensando ah! eu poderia estar ganhando 18 reais por hora de trabalho se eu não estivesse aqui agora, sem se importar com o horário de acordar no dia seguinte...

Tenho saudade, saudade mesmo, de quando éramos menos escravos e ando cansado, velho, muito cansado e não é fisicamente. Estou cheio da mesmice dos dias, da rotina, das minhas obrigações e tudo mais. E sei que você também está assim, há muito mais tempo, cansado de tentar não se sentir cansado, cansado de passar meia hora em botecos copo-sujo, cansado de passar uma noite por semana em motéis fuleiros e tem também vontade, muita vontade, de ficar deitado na cama tomando Nescau e comendo bolacha Maria nas quintas-feiras. Mas não se preocupa, velho. Daqui a uns cinco anos vai ser tudo diferente. A gente vai escrever uns poemas decentes de amor, publicar um livro e ganhar dinheiro pra beber no meio da semana. Porque é isso que a gente quer, né? Não ter muito o que fazer, beber, conhecer umas mulheres interessantes, esperar a gente se foder pra conseguir escrever uns poemas decentes de amor e publicar um livro, pra gente poder beber no meio da semana e conhecer umas mulheres interessantes, não é mesmo?

Te cuida, Bruno.

Abraço,
M.

4 comentários:

Mario Fausto disse...

Velho, eu me vi conversando com vocês agora.

Bruno Batiston disse...

Não sou esse Bruno, mas me vi nesse cansaço de hoje, nesse saudosismo que não é dos mais bem fundamentados e, principalmente, nessa esperança de publicar o livro daqui a uns cinco anos, poder beber no meio da semana.

Bruno Carvalho disse...

Man, seu texto me deixou daquele jeito. Cinco anos passam em meses, assim como certas noites duram mil anos.

Cuide-se.

Seu,
Bruno

Bruno Carvalho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.