domingo

21 de fevereiro de 2012


Talvez, de vez em quando, quando minha solidão não se fizer mais tão berrante e eu não sinta mais tanta falta do teu amor assim, eu ponha pra tocar numa dessas manhãs entediantes de domingo, em vez de Smiths ou Led Zeppelin, como sempre faço, uma dessas bandas independentes do sul do país, onde você nasceu, de que você tanto gosta e me falava. E se eu não morrer corroído pelo tédio, quem sabe, eu  faça ioga, ou volte a fazer tai shi, essas coisas orientais-astrais em que você se amarra ou então caminhe ao final da tarde à beira-mar assim que o sol comece a descolorir no céu.  Pode ser ainda que eu sinta uma vontade louca de pegar o primeiro ônibus pra Alegrete  pra passar na casa da sua mãe e com ela disfarçar o meu mal-estar de estar vivo com sorrisos simpáticos e conversas triviais sobre como fez calor no último verão gaúcho. Talvez eu resolva até trocar meus Marlboros por esses cigarros que você mesma enrola só pra espalhar esse teu cheiro pela casa e depois é possível que eu  acenda um incenso de camomila do lado de um Buda só porque eu sei que é exatamente isso que você faria em seguida.


E quem sabe numa mesma manhã ensolarada, quando teu orgulho não berrar mais tão alto assim, você resolva desabitualmente escutar em vez de Replicantes ou Tequila Baby algum rock inglês da década de 70 ou 80. E se por um infeliz acaso você estiver se sentindo muito cansada, talvez fique deitada na cama o dia inteiro, enrolada nos lençóis, com a mente completamente vazia ou então se pegue angustiada pensando em como vem fermentando há tanto tempo que chega a se sentir amorfa. Pode ser ainda que não consiga ter controle sobre si mesma e saia pra comprar um maço de cigarros de filtro vermelho pra então fumar sozinha todos em menos de duas horas e depois roa apreensiva as unhas esperando uma ligação, um e-mail, um sms, qualquer coisa que nunca chega e só em seguida decida pegar o celular por saber que seria exatamente aquilo que eu faria nessa manhã desesperada de domingo.


E talvez eu ligue antes.


E talvez conversemos inicialmente com uma racionalidade exagerada e desnecessária,  com abismos compridos de silêncio e vácuo e respirar pesado e infinito ao telefone até que dessa vez eu de súbito conte que passei as últimas madrugadas sem dormir, me enganando de que já me sentia imune ao teu amor. E quem sabe você se ofereça pra passar a tarde aqui comigo.


Então queira deus que mais tarde eu crie coragem e te conte todas essas minhas verdades inconfessáveis e cheias de contradições – ainda assim verdades – nas quais você talvez – tal-vez – finja acreditar e me diga assim, ao escutar o pulsar mais latente das veias da minha cabeça que não acredita nas minhas histórias cheias de lacunas e caminhos tortos que sempre voltam para o mesmo lugar de onde partiram, mas ainda assim mantenha o interesse pelas coisas que eu falo e tola pergunte assutada  meio que num impulso “e aquela-menina-lá?”.


Então pode ser que eu responda rindo-gargalhando que aquela-menina-lá tem um sorriso encantador e me ensinou uma porção de coisas bacanas.


“Você nem vai acreditar...”

Um comentário:

Mandi disse...

Inusitado! Gosto do jeito como constroi os seus textos!