sábado

Ruby Girl (ou trechos que ainda valem a pena)

Salvador, 22 de maio de 2010

Lullaby For Irene



perdão pela sintaxe  neológica, essa maldita.



Já tem tempo que a minha garganta não fica seca em busca de uma palavra qualquer, qualquer palavra, que eventualmente solta, pairando livre pelo ar, não a deixe sem respostas. Já faz tempo que a ponta da caneta não corre em brasa pelo papel, que o teclado não arde mais que pés descalços no asfalto de meio dia. Que o meu coração não queima como inferno. Parece que tudo que é meu, não sei, que foi nosso, foi esfriando, bem-te-vi, como tinha de ser: sem nenhuma preguiça ou pressa desnecessárias ou sem sentido. Acho que tudo: nossas músicas desconhecidas de oboé, nossas cartas aos nossos pais, Bergmans que não entendíamos, sonhos contentes de letargia, desejo quase real de permanecer só mais um dia vivos, sempre mais um, só mais um, ó,(deus), não deixa a gente morrer hoje; sei lá, tudo isso foi ganhando essa gelidez cadavérica no calor insuportável dos dias dessa cidade, que a cada dia que passa fica mais quente. Para os outros (sempre para eles).

[...]

Sabe, eu tenho uma raiva enorme de mim mesmo por não sentir embebido em nostalgia saudade nenhuma de quando minha não-presença, minha não-voz, bem-te-vi, deixavam um não-espaço enorme a ser preenchido em  todos os cantos do teu quarto, em todos os lugares da tua vida. Me esqueci de você! A gente acabou por perder o costume de se ver e eu, criatura mansa, introspectiva, não sei, que me adapto fácil a quase tudo, fui perdendo o hábito de me deixar apaixonar pelo teu gênio, pelo teu corpo, pelas tuas idéias, teu jeito de ser tão eu e tão você ao mesmo tempo e ainda assim ser tão mais você que qualquer outra pessoa no mundo, todos os dias em que, sem querer ou não, nos víamos. É, me esqueci de você. Lembranças, você pode (vai!) dizer. E eu respondo que eu não confio nas minhas porque as minhas não são puras e eu, quase nunca, ou melhor: nunca, sei separar o joio do trigo, ma jolie, não sei. Não sei fazer a diferença entre o que é lembrança do que é imaginação. Não sei o que realmente vivemos e o que imagino que tenhamos vivido. Não sei. É, me esqueci de você. Bem-te-vi,  me diz, por favor, bem-te-vi, que eu não tô ficando louco. Me esqueci de você! Tanto que não lembrava desse vermelho falso dos teus cabelos, nem desse vermelho provocante das tuas unhas. Era você mesmo? Eu acho que não. Não sei.

[...]

Ontem assim que eu te vi de novo, depois de tanto tempo sem a garganta seca, meu coração ardeu como inferno. Me deu uma aflição enorme no peito ou sei lá. Não porque eu tivesse com qualquer outra coisa além daquele desejo maior que os arranha-céus perto de tua casa de ir e falar contigo a noite inteira, madrugada adentro, banalidades que nunca disseram respeito à gente até quando nos rendêssemos, já sem forças, ao cansaço do mundo, ao tédio da vida, à fadiga do dia um do outro. Eu não tava. Já não minto mais pra mim mesmo, bem-te-vi. Mas porque eu acho que eu vi uma ruga latente de tristeza disfarçada por debaixo de toda maquiagem inútil de teu rosto, porque eu acho que senti um qualquer-coisa, muito parecido com luto, no peso dos sorrisos com os quais você tentava encobrir algo, não sei. Eu não quis te aborrecer com formalidades de estranhos-conhecidos, não quis saber como você tava porque já sabia bem que você ia me dizer "bem" e mais tarde, quando eu já estivesse só em casa, admirando as rachaduras do teto, essas tuas inverdades sutis, que não causam alarde e não têm importância para mais ninguém além do teu mundo pequenino me furtariam a paz do sono e  o sono. Eu não preciso dizer que precisei de remédios pra dormir. Você, bem-te-vi, você precisa parar de mentir pra si mesma.

[...]

Fica bem. Fica bem.

                                De quem ainda quer te ver curada da maior das mentiras: a náusea do existir.

6 comentários:

Tassyane Américo disse...

Adorei tudo aqui.
Principalmente a frase: "eu escrevo pra não ficar louco. eu escrevo pra explicar essa maldita vida pra mim mesmo."

Ótimo!

Roberto Borati disse...

sempre arrebentando a boca do balão! continue sempre.


e obrigado pelas palavras e visita!

abraço.

S. disse...

simplismente perfeito.
consegui me tranpor pra história, que se repete em algumas vidas.
adorei teu jeito de escrever. to seguindo, visita o meu se quiser..
http://shayaneazevedo.blogspot.com/

Douglas Thaynã disse...

muito foda, como toda vez.

Gabs.L disse...

Caralho,tu escreve divinamente bem!
Eu adorei teus textos,amei mesmo tudo aqui.
Tá de parabéns!
Vou até seguir ;*

Nath disse...

ótimo texto,parabéns (: