quarta-feira




Salvador. Quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Melissa,


Enquanto tomava banho hoje, começou a  tocar Tanto Mar no rádio e eu lembrei de imediato de quantas vezes eu te falei que eu gostava dessa música pela mais idiota das razões possíveis: renitente é uma das minhas palavras preferidas (ao lado de Wortschatz, do alemão; e serendipity, do inglês) e você, então repetia re-ni-ten-te, andava até a janela do teu quarto, acendia um cigarro, e dizia em seguida que gostava de  flanar e também de buceta, mas que tinha "uma leve predileção por buceta" e explicava, rindo: porque é mais engraçada.

Quando terminei, fui procurar aquela caixinha de madeira que guardo em cima do guarda-roupa pra reler todas as cartas que você me mandou.

Sabe, eu nunca tinha reparado, mas você sempre começava singela, as letras desenhadas, dizendo onde estava e que horas eram, tô em casa sem conseguir dormir e são quase duas da manhã, tô deitada na rede com o Tito no meu colo e já passa das três da tarde, são cinco e meia, tô na praia, tá quase escurecendo....

Mel, estou no meu quarto e já se aproxima da meia-noite.

Eu estou te escrevendo porque me bateu uma puta saudade-do-cacete de você. Me bateu saudade de sentar numa mesa de boteco numa noite quente de terça-feira, "o único dia da semana que as pessoas não têm motivo pra beber" - você diria -, e falar de você, de mim, de nós, dos outros, de comer pastel e tomar caldo-de-cana, de fumar unzinho na tua casa quando teus pais viajavam pra Morro de São Paulo, de conversar bobagens de madrugada, de tomar chá contigo, de transar com você!

Sei que já faz quase seis meses desde que você me mandou um e-mail contando como ia sua vida, com o que tava trabalhando, que tava muito feliz e apaixonada por um tal de João Paulo (um menino, cara! que engraçado!), e eu respondi em menos de três linhas que tinha recebido, lido tudo, tava sem tempo e que no dia seguinte mandava um à altura. Esse amanhã nunca chegou. Assim como meu telefonema de feliz aniversário, feliz natal e feliz ano-novo. Assim como meus sms "to bem e vc?" também nunca chegaram. E me sinto idiota, porque lembro como se fosse ontem de todas as vezes que dissemos um ao outro que, independente de qualquer coisa ou situação, continuaríamos sendo melhores amigos. E ainda mais idiota quando te vejo re-ni-ten-te tentando manter tudo isso vivo.

De qualquer forma, Mel: como tem passado? O que tem feito de novo? Tá empregada? Esse João Paulo? Deu pé? Você tá feliz? Tá bem? Tá linda? Já aprendeu a fazer decoupagem? Ainda vai pro Groove? Agora eu vou mais pro Júlio César. Tá cursando psicologia ou abandonou de vez? Acho que não vou me formar nunca, hein? Cansou de ficar louca ou anda cheirando até hoje quando tá na bad? Eu continuo achando isso uma merda em você! Teu pai já tá morando em Campina Grande mesmo ou só vive falando que vai mudar pra lá quando bebe?

Olha, eu estive pensando - ainda essa semana eu te ligo, espera só! -: tô querendo tirar umas milongas de ouvido e escrever um fado, ou dois, ou três, sei lá - cê ainda tá no conservatório? cê podia me ajudar. Aí você passa o final de semana aqui - pode vir na sexta à noite mesmo, eu provavelmente vou estar sem fazer nada. Aí quem sabe a gente podia dar umas voltas na praia no sábado de manhã ou no fim da tarde, os dois descalços, comprar umas pulseiras dessas que a gente gosta, que os hippies vendem, fazer macarrão com almôndegas e no final de tudo se abraçar, se abraçar, se abraçar, se abraçar até a gente morrer sufocado!

Promete pra mim que você vem, por favor. Mel, promete que  eu sei que você não é que nem eu. E promete também que você não vai me deixar ficar tão longe assim de novo, que eu vou poder te telefonar  quando tiver um pesadelo e quiser conversar, que eu vou poder contar contigo quando for traído, quando tiver doente, quando tiver com medo ou quando tiver alegre e quiser dividir minha alegria contigo.

E aceita, por favor, também minhas desculpas pela minha ausência em nós depois dos ocorridos de todos esses anos.

Não se assuste tanto com o que escrevi.
Ainda te amo de pelo menos trinta maneiras diferentes.

E citando Renato Russo pra terminar:
"Quero a tua força, como era antes."

Um beijo enorme nessa tua alma

do teu M.

Um comentário:

Rick disse...

Mais que lindo, é doce.
Acho que não ficaria mais lindo.

Bom dia. "_"