segunda-feira

Janaína

Eparrei oyá! me disse minha mãe Iansã
pr'eu amanhã ir pro Rio Vermelho
jogar um buquê de jasmin no mar,
um perfume e um pente de madeira
que é pa Yemanjá pentear o cabelo
da mulata de Exu de lá da Ribeira;

Eparrei oyá! me disse minha mãe Iansã
Ela se chama, o nome dela é Janaína
tão bonita e doce essa menina
que parece muito mais com queimado¹
o beijo molhado com sabor de hortelã;

Eparrei oyá! me disse minha mãe Iansã
Ela vai estar de colar e vestido
vai fazer um pedido que é pa Oxóssi
curar a mãe dela duma tosse
que pegou ni Itapuã;

Eparrei oyá! me disse minha mãe Iansã
Ela vai caminhar triste pela areia
parecendo sereia bem longe do mar
vai querer um abraço, se sentir sozinha
vai parar ni Dinha e comprar abará;

Axé! me disse mãezinha Iansã
Tu vai ver ela comendo sem vontade
vai perguntar a graça e a idade
vai fazer um gracejo, vai querer dar um beijo
e meio sem jeito ela vai rejeitar

Axé! me disse mãezinha Iansã
De toda a gente, esse menino,
tu fica contente que ela vai gostar de tu
e vai voltar pra casa sorrindo
vai fazer um caruru que é pa Exu;
abrir teu caminho pra ela te ver
e te dar um carinho em frente à TV;

Axé! me disse mãezinha Iansã
que tu vai fazer feliz essa mulher
e ela vai te dar de tudo:
amor,  conselho, bolo de milho
vai te dar até mesmo um filho
que vai nascer no dia de Oxumaré.


6 comentários:

Davi disse...

Um poema bem elaborado, fazer algo nessa linguagem é arriscado, tem que ser feito por quem entende esse universo. Foi bem exposto teu talento peculiar! Parabéns.

Blog Na Onda disse...

Curti a poesia a mescla da mitologia negra com referências modernas e bem baianas. Me lembrou (não sei porque) da Janaina de Otto. Abraço! Espero que Yemanjá possa fazer você da uma passa no meu blog! Obrigado

tripudie disse...

obviamente o poema foi muito bem pensado, a cada verso, a cada palavra e isso me satisfaz do começo ao fim. não posso deixar de pensar nas "profecias" das últimas estrofes como a riqueza desse poema. Foi a dose conotativa ao realismo do vocabulário. Parece-se uma comida nordestina, com seus gostos fortes, mas que nos dá vontade de comer mais e mais.

Carol Rezende disse...

Genial! Sem mais...

(Respondendo o seu comentário, já tentei fazer narrativas, mas minha imaginação e vocabulário não se estende a tanto... Preciso treinar mais e ler mais, rs. E obrigada pelo elogio! E sim, Jackinho é um gênio!)

Camila P. disse...

com efeito, fugir é um verbo bem apropriado.

Anna Bittencourt disse...

Não sei escrever bonito como você, nem os amigos acima, mas...
Eu amei.
Simles.
Amei.