sábado

Túlio

Limpar o aquário, ligar pra Joana, consertar o chuveiro queimado, polir os talheres novos e mais o quê? e mais o quê?... Era o que eu me perguntava enquanto punha a chave na fechadura. Estava atormentado pela sensação de que havia esquecido de fazer alguma coisa importante, mas aí me lembrei do Túlio e, meu deus!, meu coração esfarelou-se de imediato porque ele era tão sensível e já estava tão cabisbaixo há algum tempo que eu mal podia imaginá-lo com seu rosto choroso em minha frente sem entender nada do que tinha acontecido e talvez até carregando dentro dele uma culpa pesada e inexistente, então tudo que eu mais queria naquele momento era vê-lo e pô-lo no meu colo e enchê-lo de carícias até que ele suspirasse de conforto e pudesse desfrutar de um sono bom e tranqüilo, como há muito tempo eu imaginava que não acontecia. Fechei a porta e num só movimento me pus descalço e fui caminhando até a cozinha quando, no meio do caminho fui surpreendido pela Duda recostada na porta do quarto, admirando com o semblante pesaroso um Munch que tinha na parede oposta. Ela queria ter pintado aquele quadro. Tinha tanta coisa guardada dentro dela, que eu tinha certeza de que a Duda precisava gritar até ficar surda, mas ela não sabia como fazer, por isso ficava horas olhando pro Munch, escutando seus gritos ecoarem dentro dela:
- Achei que não fosse mais te ver aqui.
E sem tirar os olhos da pintura ela me pediu um cigarro. A fita vermelha que prendia seu cachinhos castanhos vibrando, a pele pálida, pálida, linda. Eu não tenho. Mas você sempre compra. Pra mim. Pra mim. Não foram os cigarros que eu esqueci. Não sabia que ainda a encontraria. E começou a esfregar sua mão direita no outro braço, como se fosse ali que lhe doesse.
- Achei que nunca mais fosse te ver. Só trouxe mostarda e os talheres novos que a gente queria. Você queria eles muito mais do que eu, né? Ela disse que era e sorriu um pouquinho com sua alma, então tirei-os da sacola para mostrar-lhe:
- São mais lindos que na loja - exclamou. Concordei.
- Como tá o Túlio? - eu quis saber.
- Não saiu do quarto hoje. Ainda nem comeu. Eu fiz lasanha. Tem pra você guardada na geladeira. É só esquentar. Ele anda tão tristonho ultimamente. Dá até pena de ver.
E eu disse é...
- Não tem nenhum cigarro mesmo?
Nem respondi porque eu não conseguia pensar em nada, exceto no meu Túlio, e nessa vida toda de isolamento que ele vinha levando nos últimos dias e aquela certeza de que algo importante estava faltando ia crescendo assombrosamente em mim, então subitamente fui andando até a cozinha para pôr as compras no lugar quando a Duda me pediu um copo d'água.
- Você vai ficar bem? - perguntei
- Vou - e tomou o copo da minha mão. Toma conta de tudo, viu? E não esquece de alimentar o Túlio.
- Tá...
Duda me beijou o rosto com tamanha paixão que por um momento eu acreditei que dentro dela ainda havia um pouco de vida. Em seguida trancou a porta por dentro.
E lá dentro ficou andando de um lado a outro do quarto por uns cinco minutos, talvez esperando que alguma coisa aparecesse milagrosamente na última hora para salvá-la. Bebeu toda a água num gole ligeiro, como se ali no copo houvesse coragem em líquido, de forma que ela posicionou o cano da arma sem medo de nada, nem da morte, nem de deus, nem do inferno, nem de nada em que ela acreditava, quase no fundo de sua garganta. Na minha mente o estampido abafado pelos quase vinte e dois centímetros de concreto da parede soou como um estalo, um aviso que me fez lembrar que naquela casa não havia comida de gato. E eu ouvi na minha cabeça a voz serena da Duda falando comigo pela última vez. Toma conta de tudo, viu?
Calcei os chinelos em direção ao supermercado novamente. Não posso deixar o Túlio morrer de fome

4 comentários:

Mario Fausto disse...

Camisa 7!

Vαnєssα Olιvєirα disse...

é...Você que é Rugal.

melhor que wii

mia disse...

Gostei do teu caos organizado. Eu volto se achar o caminho.

Guilherme Sakuma disse...

gosto dessas paradas frenéticas. e, ei, em parceria com outros caras, escrevo no blog: totolunatico.blogspot.com - se der, me segue nesse também; e a gente te segue por lá. Abraço!