domingo

POSTLUDIO IN E-MINORE



Quando eu sair pra nunca mais voltar 
Vou te escrever, telefonar
Para contar tudo que eu vi, fotografei
E não mostrei

M.,

Esta é a carta que queria que você tivesse escrito pra mim, então, se possível, sente-se num lugar confortável com uma dose eventualmente generosa de qualquer bebida alcoólica ao teu alcance para que, ao final da leitura, possa tomar tudo num ´único trago e leia num fôlego as tuas palavras que sucederão a partir desta linha: 


Jamais poderia haver suspeitado dessa vertigem e dessa vacuidade que corroem lá dentro o âmago da gente. Tampouco conseguiria imaginar espontaneamente que precisaríamos de pelo menos vinte-e-poucos pra entender com clareza a sutil metáfora do ovo da serpente de Bergman ou concluir que a gente cria laços por insegurança e os mantém frouxos por medo. Eu demorei a entender que é verdade que as pessoas, elas têm mania de ir embora e mais uma porção de coisas das quais você me falava com tanto medo e angústia em momentos sombrios que tua voz ficava tão carregada e densa que parecia pesar uma tonelada de toneladas.

Refletindo sobre tudo isso, me peguei pensando na imagem que tinha de você, em especial, até certo tempo atrás: tua inteligência rara, tes grains de beauté espalhados pelo corpo inteiro, os raios de ternura que te saltavam dos olhos, a empolgação com que falava de um assunto do qual possuía um profundo conhecimento, as pontas duplas nos fios de cabelo, o semblante risonho, os quilinhos a mais, tua candura, as caras engraçadas embaixo do chuveiro. Isso até o momento em que resolvi entrar na internet para só então me dar conta de como o tempo, ele só te fez mal. Durante horas li tuas confissões íntimas que compartilha com desconhecidos – acredite: dá pra sentir daqui a amplitude do desconforto com que descreve em teus textos o desalento daqueles que "permanecem inertes com as bagagens da vida". Percebi como teu descontentamento com o mundo está ainda mais acentuado e fiquei me perguntando quando e, sobretudo, por que você deixou toda aquela inocência graciosa ser trocada por sorrisos apagados que claramente te incomodam,  te machucam; por discursos  que trescalam ambiguidade; por estereótipos vis que abominava e, principalmente, por essa seriedade que te cai tão bem quanto sapatos emprestados.

Quanto a mim, ah, quanta ironia: não tinha ideia de que quando uma alma parte, ela tem vontade de regressar e remendar tudo aquilo que fez de errado. Também pudera: você, tão não-espiritualista, nunca foi capaz de me ensinar essas coisas. Nem posso, contudo, te culpar por isso. Fui eu quem chegou muito próximo de te destruir completamente me afastando de nós, te fazendo pensar coisas horríveis ao meu respeito, mas no fundo, no fundo, você não estava só porque padecíamos da mesma dor. Com toda minha tolice, fui embora sem ter a menor ideia de que nem sempre se pode pedir perdão pelos pecados cometidos, que nem sempre há oportunidade de redenção. 

(...) 

Por vezes pensamentos assim me passam pela cabeça e é inevitável deixar passar despercebida essa quantidade de coisas incríveis que você, conscientemente ou não, agregou à minha vida – e não estou me referindo àquela perspicácia anteriormente citada, que tempos depois me provocaram momentos intensos de epifania. Vai além, muito além, só que não vale a pena ficar elencando tudo. Em primeiro lugar porque sabe exatamente do que estou falando e, além disso, sabe que sempre detestei me repetir. A verdade é que agora sinto o peso filho-da-mãe do dedo do destino me empurrando pra longe, bem longe, muito mais longe do que eu gostaria ou sequer conseguiria imaginar. Estou me mudando e receio que nunca, nunca  mais esteja de volta. E eis o motivo de estar te escrevendo isto: não fosse você, não seria capaz de antecipar com tamanha precisão que minha partida implica necessariamente no rompimento do fio frágil que, por medo, deixamos deliberadamente frouxos 

A princípio minha intenção era apenas deixar explícita minha gratidão por todo esse conhecimento que me você me ensinou e talvez te falar algumas coisas que sempre tive vontade, como o quanto tua inquietude com tudo aquilo que não cabe em você, de uma forma ou de outra, assim que tomo conhecimento, acabam me afetando; ia te pedir pra pensar em mim sempre com bastante carinho, pra deixar se surpreender pelo amor e continuar canalizando a força dessa tristeza e de todo esse vazio em literatura, como vem fazendo tão bem; por fim pretendia também te confessar umas coisas menos triviais que sempre mantive em segredo, por exemplo, que já tive vontade de me casar contigo, que volta e meia oro pelo teu bem-estar e que às vezes, até hoje,  fico me lembrando como foi a última vez que  transamos - incrivelmente fantástico pra nós - e logo em seguida me pego pensando em como teria sido ir pra cama contigo de novo. Incrivelmente confuso, incrivelmente triste, cara! Suponho que há de concordar comigo.  A propósito, depois de você não consegui mais me doar, me entregar por inteira a mais ninguém. E as inúmeras tentativas  - você provavelmente deve ter ouvido os rumores de que virei puta - foram todas vãs. Nunca mais gozei de novo. Teria sido mesmo fantástico, triste e confuso, confuso pra caralho. Mas enquanto ponderava sobre cada oração, cada palavra dessas coisas doidas todas que eu acabei de te falar, concluí que desenvolver minunciosamente e justificar todas essas divagações seria uma perda de tempo notória e, acima de tudo, cruel demais conosco, já que não te traria nenhum conforto, nenhuma paz, não me deixaria mais leve, ao contrário, talvez abrisse em nós chagas ainda não-cicatrizadas, e estas acabariam por nos dilacerar de uma vez por todas.

Sinto muito se, porventura, tenha exposto tudo isso tarde demais.

Que Deus nos dê muita força.


Cordialmente, tua

Nenhum comentário: