sexta-feira


Salvador, 28 de abril de 2011

Precisava de você hoje.
Guria, até entendo essas viagens que tu tem que fazer pra Argentina - ou sabe deus mais aonde - e desconfio muito que hoje, quando acordei, era cedo ainda - e sabia disso não porque tinha visto algum ponteiro ou números indicando as horas, mas sim porque, assim que olhei pro céu, vi apenas brilhos tímidos do sol e um azul desbotado como meus olhos - veja bem, desconfio muito que não era saudade o que sentia na hora nem nada similar. Era uma necessidade urgente, faminta, de você. De você.

[...]

Fui até a padaria, ainda com gosto de sono na boca. O vento despenteava meus cabelos. Senti um cheiro forte de café, precisava de você, sabia disso. As pessoas me olhavam com o canto do olho e, não sei, acho que sentiam que também precisavam da mesma coisa que eu.


[...]

Andei sozinho pela Pereira Cardoso, já era noite, passei em frente à tua casa, a tua casa, e tive vontade de tocar a campainha, mesmo sabendo que a porta não iria abrir e que você não viria descalça, correndo até o portão, com as mãos já posicionadas pra me dar o melhor dos seus abraços.  Precisava de você, guria, em silêncio comigo na varanda, olhando pra mim com cara de fica-assim-não, tico-tico.

Voltei, arrastado pelo vento, como sem rumo, pra Rua das Gaivotas, procurando em toda janela de qualquer quinto andar algum rosto com fios de cabelo tortos e riso fácil, alguém que me fizesse lembrar de quando andava por aquele lugar com livros de física na mochila e balas de maçã-verde nos bolsos. Precisava de você, bem-te-vi, pra varrer do meu quarto a angústia da tua ausência, que insiste em se espalhar pelo chão, pela cômoda, pelos meus livros, pelos meus lençóis...

[...]

Precisei de você hoje.

9 comentários:

Camila P. disse...

e hoje logo logo acaba.

Fernanda Amábile disse...

Pelo menos você, já sabe do que precisa. parabéns belo texto.

Tainá Holanda disse...

e amanhã?

- Mateus Bernstein disse...

o amanhã "adeus" pertence.

Hellus disse...

"...fica-assim-não, tico-tico."

Leve, leve, leve.

Marília Costa disse...

engraçado como o tempo passa e as necessidades mudam. o que hoje é tão "eternamente necessário" amanhã pode ser "eternamente esquecido" e substituído. A lei da selva!
um cheiro!

Selva P. disse...

Ah, que delicia de texto, Matt.
Nossa, adoro vir aqui e me perder..
Tão leve, tão intenso, tão sincero.
Parabéns ;*

Profeta do Terror disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Profeta do Terror disse...

Grande Mateus.
Senti saudade até de quem nunca conheci agora. Mas vc consegue fazer com que sintamos uma saudade boa, saudade de quem lembra e sorrir. De quem acredita no reencontro.