quarta-feira

Salvador, 2010


Todas as noites, assim que ponho a cabeça no travesseiro pra ir dormir, penso nas mesmas coisas: amanhã eu vou mudar, vou arrumar um trampo, parar de fumar, fazer novos amigos, arrumar meu quarto, lavar minhas cuecas, cortar o cabelo, ir à missa no domingo... - mas quando levanto pela manhã, minha moça, meus olhos estão sempre inundados d'água e uma tristeza desesperada começa a latejar no meu peito, daí lembro de todas as minhas obrigações e promessas e percebo que estou naufragando nessas minhas dezenas de deveres e tarefas que simplesmente não tenho vontade de fazer porque meu coração vive em estilhaços.

Tentei te ligar hoje mais cedo, pra talvez remediar essa doença, sei lá, umas cinco ou seis vezes, praticamente em seqüência. Em vão. Deu caixa postal, caixa postal, caixa postal, caixa postal... Seria bom se, não sei, às vezes você não fosse tão enrolada e tão cheia de obrigações, fosse assim que nem eu -desempregado e vagabundo e espiritualmente enfermo. Estava vendo um desses jornais na TV, nos quais a vida da gente parece ser fadada unicamente a um mesmo destino apocalíptico, quando, de repente, me veio assim, do nada mesmo, um querer imenso de te falar um monte de coisa que ainda tá aqui entupida na minha garganta, me matando aos poucos por asfixia.

[...]

Não ria, por favor, mas, sem que me desse conta, você se tornou na única alegria que tenho hoje. E, sabe, tive vontade de te ver e ouvir qualquer coisa que você tenha pra me falar sobre flautas transversais ou iguanas - essas coisas das quais eu não entendo nada e, logo, fico me sentindo burro por não conseguir interagir direito contigo - só pra quando estivesse dando quase 21h eu lhe dizer que tenho que ir embora, inventar que vou fazer sei-lá-o-que amanhã cedo, falar que hoje em dia tá tudo tão perigoso e eu não quero levar um tiro ou ser assaltado, só pra depois ver tua carinha mais ou menos um pouco triste e ganhar um abraço teu. Queria um carinho, um afago nos cabelos ou qualquer coisa assim. Precisava disso e sabia que ia conseguir com você, desse jeito "forçado" mesmo.

[...]

Depois fiquei pensando e achei melhor que você não tivesse atendido mesmo. De asfixiado, carente e solitário por aqui, já basta eu. Não quero ficar te sufocando com esses problemas da minha alma. 

Passei o resto da manhã na varanda, me afogando nas minhas próprias agonias e pensamentos, observando o asfalto, os carros que passavam pela avenida, o concreto, o vidro, o cimento e o tédio dessa porra dessa cidade. 

Sinto falta de poder respirar e sinto falta mais ainda tua, minha moça - uma bomba de oxigênio na minha vida.

Mas não precisa se preocupar comigo
Um forte abraço, querida.

[...]


7 comentários:

Thaís. disse...

Eu achei lindo a maneira que você usou para transformar essa solidão e angústia em algo bonito, ainda que em silêncio, doa.
Boba mesmo é essa moça que não esquece um pouco do mundo lá fora e vai curar um pouco das suas feridas. E quem sabe as dela, juntamente.

Um abraço, moço. Um sorriso. E o desejo de que passe logo. :*

Douglas Thaynã disse...

Foda!

Wendy Oliveira disse...

Gostei muito, de verdade.

Má Khalil disse...

Adorei. Bem legal o blog. Muito bem escrito o texto.

Irei segui-lo.

Abraços,
Má.
_____
http://odeavida.blogspot.com/

Guilherme Rodriguez disse...

Buenísimo!

Liρє Pαiм disse...

Massa, veei!

Mme. A. disse...

Acho curioso como as pessoas conseguem escrever odes àquelas que estão longe, mesmo estando perto. Eu tenho mania disso aí. Ainda que faça tempo que não escrevo (porque, no caso, sou eu quem anda longe de mim mesma, nem carta ando recebendo...) grande parte do que escrevi foi para as versões imaginárias de pessoas que sumiram ou foram sumidas, ou ainda para aquelas que fiz o favor de inventar para deixar as coisas menos chatas.

Pff. Na verdade só estou te deixando um comentário para que vc fique feliz pelos seus textos. Confesso, não li todos, mas, como disse, tenho essa queda por cartas confessionais para seres inventados ou não. Assim, meus parabéns. :)