quinta-feira

havia meses que não parava de chover naquela cidade.

e as pessoas com suas galochas e capas e carros com pára-brisas haviam se habituado tanto à chuva que nem nas ruas e nem nos telejornais ninguém falava mais sobre ela. era como se chovesse chovesse chovesse desde sempre. tereza também não falava. apenas esquentava a água para fazer o café com o pó que reaproveitava do dia anterior. andava até a janela e observava - mais perto que o resto do mundo -  aquela chuva infinita que não parava de cair nunca. eram tempos difíceis aqueles: a umidade vinha aumentando e começava a doer na ponta dos dedos dos pés. 

não pense não pense.

mas como não pensar! as roupas não secavam e as noites tornavam-se cada vez mais insuportáveis. já quase não havia mais comida e tereza não podia mais descer o morro para catar latinhas porque não havia mais latinhas para serem catadas. as pessoas agora não iam mais à praia nem  compravam mais cerveja e nem refrigerante para as crianças mimadas. as pessoas agora preferiam ficar em casa e ver filmes em suas TVs enormes e tomar chocolate quente em xícaras de cerâmica e se enrolar em edredons de pele de alpaca para dormir com aquele barulhinho gostoso que as gostas de água faziam quando batiam no telhado.

***

a chuva engrossara quando o café ficou pronto. tereza era mais negra que o café que tomava. e sua vida, ela refletia, mais amarga. na semana passada o seu marido jaime havia falecido. jaime era faz-tudo. mas agora já não tinha mais piscinas para serem limpas, ar-condicionados para serem instalados e nem ventiladores de teto com defeito, de modo que quando o chamaram para ajeitar um chuveiro pifado do outro lado da cidade, não pensou duas vezes. jaime não tinha guarda-chuva, não tinha botas. nem casaco. ficou no aguaçal esperando o ônibus durante uma hora e meia para ir e durante mais duas horas para voltar para casa. de madrugada ele teve febre e convulsão. dias depois, depois de muito tossir, deu um suspiro longo e morreu. 

não pense não pense.

era bastante fácil distinguir as lágrimas das gotas de chuva que agora batiam com força no rosto de tereza. e ela nem sabia se o que provocava isso era a fome, que começava a apertar, ou a imensidão daquele barraco. caminhou até o canto e deitou-se no colchão sobre o chão frio. fechou os olhos e foi descendo seus dedos ásperos até sua vulva. começou a se masturbar. tereza imaginava seu marido tocando sua pele enquanto começava a chover mais forte falando em seu ouvido enquanto chovia ainda mais forte chupando sua boceta enquanto a chuva ia desabando penetrando-a ali mesmo enquanto chovia mais e mais e mais. gozou sozinha, sem perceber o temporal que havia se formado. 

tereza catou alguns farrapos fedorentos e jogou por cima de si. adormeceu.

amanhã continuará a chover.

Um comentário:

Vinícius Reis disse...

Eu fico meses sem vir aqui. Aí, quando me pego procurando algo diferente pra ler, algo denso - pesado mesmo, tem que ser pesado pra valer a pena, porra -, e sempre termino aqui.

E sempre vale a pena.

Puta que pariu. Não sei o que gostei mais. Dos simbolismos, da imagem forte, da chuva... Puta que pariu!