domingo

Maria Flor

I. Gênesis



ב והארץ היתה תהו ובהו וחשך על פני תהום
(Séfer Bereshit 1:2)


No princípio era só tristeza.

E junto com ela aquela puta sensação de que nada seria capaz de fazê-la desaparecer: clonazepan, ayurveda, uísques ordinários, livros para colorir, livros de autoajuda, saraus, puteiros, sinagogas, surf, retiros espirituais, clube do livro, prozac, nada.


II. Nut


Uma noite, sentado sozinho no Largo da Mariquita, Maria Flor se aproximou de mim e me pediu um isqueiro. Engraçado. Eu tinha um maço de Hollywood no bolso, mas também estava sem isqueiro. Ela comentou que havia me visto fumando minutos antes e logo depois emendou dizendo que, na verdade, na verdade, aquela não era a primeira vez, que me via muitas vezes, muitas vezes mesmo, que me via pra caralho e que eu estava em quase todos os lugares aonde ia. Eu nunca tinha notado ela antes, mas nesse momento pensei que Maria Flor era uma espécie de Marla Singer. Uma Marla Singer de olhinhos quentes e tristes, pele cor de oliva, cabelos alaranjados e voz aveludada. Me falou que com frequência me via andando sem rumo pelo Canela e pelo Garcia e pelo Campo Grande e pelo Politeama. E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, sentou-se à minha mesa e pediu um copo ao garçom. Me perguntou onde eu morava. Disse que não muito longe. Respondeu, sarcástica, que era um milagre eu ainda ter um teto. De fato, era. Então, tive vontade de rir.

Foi assim que a conheci.


III. Aset


Maria Flor falava pelos cotovelos e eu gostava de escutá-la. Gostava do jeito como ela cadenciava as palavras quando contava suas histórias. Gostava do timbre da sua risada, do modo como tamborilava sambas sobre a mesa do boteco.

No princípio era desconfiança.

Maria Flor voltou comigo pra casa. Mexeu no meu computador e não encontrou nenhum álbum do Muddy Waters. Eu havia lhe dito que era fã, mas na verdade só conhecia de nome. Maria Flor me fez ouvir muitos músicos de blues naquela noite e em noites seguintes. Me fez mudar os móveis de lugar, pintar as paredes e até comprou peixes novos para o aquário. Afinou meu violão, me ensinou um pouco de tango e salsa. Colocou uma rede na minha sacada. Colocou fotos nos meus porta-retratos. Desabotoou minha camisa, desafivelou meu cinto, baixou minhas calças, pôs as mãos por trás das minhas costas e me puxou contra seu peito.

Maria Flor despiu a minha alma.



IV. Al-Waqui'a”


No principio era só tristeza.

E então houve o toque, o olhar nos olhos, o sexo, a espontaneidade, as cervejas no meio da semana, as conversas sem sentido, as conversas sobre o sentido da vida, as gargalhadas em locais inapropriados, os cigarros divididos, os livros compartilhados, os CDs, as idas aos cinema e os filmes embaixo dos cobertores, as carícias, as composições no violão, os planos pra um futuro não-tão-distante, a agonia da ausência um do outro, as guerras de travesseiro, as viagens pro interior, as viagens pelo litoral, as noites de porre juntos, as tardes preguiçosas, os brigadeiros de panela, as confissões, os cafunés no cabelo, o mimo excessivo, a implicância com coisas bobas, as discussões para ver quem iria lavar a louça, quem iria comprar o pão, a autossabotagem, os autoquestionamentos, os ciúmes, o medo do compromisso, o adeus de quem se vai sem ao menos se preocupar em trancar a porta.

Agora tudo é tristeza, tudo é sem forma, tudo é vazio.

Tudo é Maria Flor.

2 comentários:

Thyago Leonel disse...

Fantastico!

Douglas Thaynã disse...

Ciclos... Matt, que coisa linda esse texto!